Nas últimas semanas eu fui bombardeada com frases como essas:

“Elas são apenas cabides”
“Comer pra quê? faça jejum”
“BBB engorda 5 quilos em confinamento” 

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Nas revistas, nos jornais, nas redes sociais o que a gente mais vê são notícias depreciando o corpo de mulheres como nós. Mulheres que passam uma vida em torno de dietas loucas na busca pelo corpo esteticamente perfeito que elas nunca vão ter. Porque o corpo perfeito não existe.
Não seria exagero dizer que esse corpo perfeito é fruto de doenças. Depressão, compulsão, anorexia, bulimia, vigorexia. Teve um ponto nesses últimos dias em que eu chorei, em que tudo que eu passei durante boa parte da minha vida veio a tona. Não é engraçado brincar com o nosso corpo, não é bacana nem descolado ficar doente.
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À beira dos 15 anos eu tive anorexia, com muitos quilos a menos não seria exagero dizer que eu quase morri, 18% das meninas que adquirem esse transtorno morrem. Eu contava calorias e de tanto contar as 500 que eu ingeria por dia acabei parando no hospital. Nessa época o meu médico me impediu de viajar, o que seria o meu presente de aniversário acabou se tornando uma arma letal. Eu corria risco de vida, se eu emagrecesse mais um pouco e contraísse qualquer pneumonia que fosse poderia morrer lá fora mesmo, longe de casa. Eu tinha uma barriga negativa e ossos proeminentes e não tinha controle nenhum sobre o meu corpo, eu precisava ser vigiada constantemente e não tinha noção do que era se alimentar normalmente. Pra falar a verdade até hoje eu não sei direito que é comer muito ou pouco.
Quando uma menina de 15 anos (ou mesmo uma de 30, sejamos sinceras) lê em uma revista de moda que ela não precisa comer, que ela precisa ter um thigh gap e uma saboneteira à mostra, ela vai correr atrás desse padrão maluco pra tentar se encaixar. Não porque ela seja burra, mas porque a maioria dos veículos de comunicação estarão passando a mesma mensagem. E conforme esse bombardeamento de imagens virtualmente tratradas vai acontecendo, mais insatisfeitas ficamos com nós mesmas, ao ponto de 78% das mulheres viverem infelizes com seus corpos.
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Existem meninas que são naturalmente magrinhas? Claro que sim. Existem as que são naturalmente mais gordinhas? Também e que bom que existem, várias, de todos tipos. Só que precisamos nos ver, todas nós, não só as naturalmente magras. Precisamos nos ver, saudáveis, em todos os lugares, não só no comercial de sabonete. Precisamos ver nossas estrias e celulites, nossos pneus, nossas rugas, nossas manchas. Veja bem, até as modelos anoréxicas sofrem com injeções de photoshop. Não é porque algo é transmitido por uma tela ou folha de revista que simboliza a realidade. Usando uma analogia a Platão, acredito que todas vivemos em algum momento de nossas vidas como um prisioneiro na alegoria da caverna, passamos a vida inteira julgando apenas sombras e ilusões, desconhecendo a verdade, porque olhávamos (e olhamos) mais para a imitação irreal de uma verdade do que para a própria verdade.
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Aí você fica no meio de duas escolhas: ser forte o suficiente para não se deixar levar pela mídia, ou se deixar levar a ponto de gastar boa parte dos seus esforços e juventude com isso. A verdade é que você vai acabar transitando, em porcentagem maior ou menor, entre essas duas escolhas. A não ser que viva isolada da sociedade, sem nenhum contato com meios de comunicação, vai acabar sendo influenciada por eles. Só que existe uma coisa muito importante nisso todo: a mídia, que a gente tanto critica é feita de pessoas, pessoas que na maioria dos casos não se dão conta do tamanho estrago que estão causando. Pessoas que foram criadas para reproduzirem esse discurso, pessoas que também não se aceitam do jeito que são. Pessoas que ainda não foram tiradas de suas próprias cavernas.
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Eu fui a um extremo desse sistema e vi a morte de perto, porque não havia ninguém pra me mostrar, no meio de uma depressão que eu já vivia antes, que é possível ser feliz apenas sendo.
Precisamos (assim como eu precisei e preciso até hoje) de uma mídia feita por mulheres! De mulheres reais para mulheres reais. Precisamos nos identificar e ver mulheres saudáveis e orgulhosas de quem elas realmente são, pra que o peso erroneamente ideal seja o último dos nossos pensamentos. Pra que a gente possa parar de ser tratada (e como conseqüência, de se tratar) como um objeto moldável.
||||| 79 amei! |||||

Sobre o autor

Carioca, 20 anos, publicitaria em formação, nascida com um pé na moda e no chão de fábrica. Apaixonada por arte urbana e por tudo que é colorido, louca do instagram. Virginiana com ascende em libra, crítica e sensível. Acha que moda é o que a gente faz todo dia quando acorda.

  • Gabriela S. Padilha

    Adorei! Falta muita representatividade na mídia. http://www.alemdolookdodia.com

  • Mari, sua maravilhosinha! Arrasou!!1 Representatividade. Mulheres reais falando para mulheres reais!

  • carla

    Só não acredito que a mídia faça isso inocentemente… Deve ter um inferno só para eles..

  • Débora Campos

    Eu acho que a mídia sabe muito bem o que esta fazendo. A maior parte dos meios de comunicação em massa sobrevivem de publicidade e precisam perpetuar alguns padrões pra vender bem. Principalmente as revistas femininas, que bombardeiam a gente com dietas, roupas, produtos de beleza, cosméticos etc. E do mesmo modo uma Playboy da vida vai perpetuar a imagem de macho alfa, afim de vender carros de macho, relógios de macho, perfumes de macho e tudo de macho pegador de mulher gostosa. Tudo é muito bem pesquisado pra conhecer o público e manusear a massa – é nós, queiroz! hehehe

  • Devo aplaudir de pé esse post, Carla. Cheguei aqui através do Coisas de Diva, btw.
    Sofri muito com isso quando era adolescente e confesso que ainda sofro (recentemente postei no meu blog sobre minha tentativa de superação dos meus seios pequenos – http://www.belivs.com.br/2015/03/a-ditadura-do-bojo.html). A mídia influencia, sim, porém a gente não pode esquecer de que quem faz a mídia somos nós, né?

    Eu fico feliz demais quando vejo mulheres lindas e bem gente como a gente se mostrando e mais do que isso: mostrando que são felizes, como são.
    Um beijo!