Você já parou para pensar que valorizar a beleza natural como um atributo importante também pode ser opressor?

Dentro da sociedade em que fomos criadas, a beleza é um dos grandes atributos femininos. Isso não é nenhuma novidade. Também não é novidade que, desde que nascemos, somos expostas aos padrões de beleza e à importância de nos encaixarmos neles. Faz parte da nossa socialização como mulher a ideia de que devemos ser lindas sempre e de que tudo que está fora do padrão deve ser corrigido, consertado ou escondido. Com a 3ª onda do feminismo e as campanhas pelo empoderamento das mulheres, estamos vendo (graçasàdeusa) uma desconstrução da ideia da mulher como objeto decorativo e um movimento que busca a valorização de outros atributos antes dos atributos físicos.

Como já falamos outras vezes aqui: empoderamento é (entre algumas coisas) sentir-se no controle de si mesma, ter poder sobre nossas escolhas e decisões mesmo que elas entrem em choque com o que nos foi socialmente ensinado. E quanto mais nos sentimos empoderadas, mais reagimos ao que nos foi imposto de alguma forma pelos padrões sociais – e mais esperamos que outras mulheres empoderadas reajam aos sistemas que nos oprimem.

Os movimentos de valorização da beleza natural, como as campanhas que celebram a transição capilar e o não-uso de maquiagem, são grandes exemplos de como as mulheres estão reagindo aos sistemas opressores e aos antigos padrões de beleza. O grande problema é que até mesmo nossa reação é, muitas vezes, pautada por tudo aquilo que aprendemos desde o momento que saímos do útero. A pessoa que somos, mesmo dentro das revoluções, é cria da sociedade opressora em que vivemos.

Ou seja, até mesmo a ideia de beleza natural pode ser extremamente opressora. Já parou para pensar? Mesmo a beleza natural, sem maquiagem, sem intervenções estéticas deve estar dentro da esfera de perfeição. Vimos isso com Alicia Keys, que escreveu uma carta sobre como deixar de usar maquiagem a deixava livre, mas não abre mão de horas e horas de cuidados que a deixem com a pele impecável e continua andando com uma maquiadora a tiracolo para produzir um look que pareça o mais natural possível. Vimos isso esses dias com Kim Kardashian, que foi ao desfile da Balenciaga supostamente sem maquiagem, mas com cílios alongados, pele perfeita e iluminada e talvez um contorno.

Nos parece muito simples levantar a bandeira da “pele natural” e “sem maquiagem” quando você tem uma pele sem espinhas, sem linhas visíveis, sem manchas, sem olheiras marcas e tudo mais que nos foi ensinado que deveríamos disfarçar, esconder ou eliminar. O mesmo vale para quando fazemos campanhas para mulheres assumirem os seus cabelos naturais e, ao mesmo tempo, buscamos incessantemente a ideia de “cachos perfeitos” ou “como eliminar o frizz”. A mesma coisa acontece quando gritamos que todos os tipos de corpos são lindos, mas que para estar bem vestida você deve ajeitar suas proporções e valorizar as partes finas do seu corpo.

Muito fácil ser livre dos sistemas opressores quando você não precisa deles para se encaixar nos padrões sociais, certo? O natural só vale quando ele não agride aos olhos da sociedade?

A gente acha que o primeiro passo para realmente valorizarmos a beleza natural, sem construir mais um sistema opressor nas nossas vidas, é desligar a ideia de que beleza está relacionada à ideia de estar perfeita.

Mulheres reais e naturais do #modicesinspira e grupo do Modices

O natural é aquilo que é inerente ao nosso ser, mesmo aquilo que é considerado um defeito, mesmo o que é considerado imperfeição. Empoderamento é viver de acordo com as nossas verdades, mas saber que toda reação contra um padrão social é um processo doloroso e nada simples. O importante é não nos pressionarmos e não pressionar ninguém a ser/parecer naturalmente perfeito.

E aí? O que você acha dessa valorização da beleza natural?

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Sobre o autor

editora executiva

30 anos, publicitária, feminista imperfeita. É Editora Executiva do Modices. Escreve sobre moda, bebe uísque e ama gatos. Se divide entre ser totalmente racional e acreditar em unicórnios. @ninaribeiro no Insta.

  • Helena Merlo

    Muito bom o texto Nina, concordo com tudo. E acho uma sacanagem Alicia Keys usar isso como marketing, pra mim é o mesmo gesto de intimidar como vc disse. Se ela quer usar menos maquiagem, apenas use menos e pronto. Quando ela faz uma carta sobre isso e coloca na mídia, ela está utilizando como propaganda coisas que a gente luta tanto pra conseguir.

  • Nossa Nina, obrigada por esse texto. Esses dias estava vendo The Voice com as minhas irmãs e questionamos isso, a Alicia Keys ta toda falando que ta livre sem maquiagem mas no episódio que eu vi ela mal tinha sardas! Sendo que tem fotos que ela ta super com sardas no rosto… Ai a gente fica “ué?”.
    Eu acho que isso faz a gente se sentir mal, porque olha a Kim “sem maquiagem”, ela está sem nenhuma manchinha no rosto! Que pele é essa? Ai você se olha no espelho, vê suas espinhas, sua marquinha de catapora e se sente na bad por não ser como elas…

    É como você disse, é fácil ser natural se o seu natural agrada a massa.

    Eu raramente uso maquiagem no trabalho, o ambiente “não me obriga” a usar então aproveito o embalo e não uso mesmo mas minha pele ta longe de ser “perfeita” e sabe o melhor? Nem me importo, eu sou mais que essa pele naturalmente maquiada.

  • Vivian Fróes

    Nininha, já disse que você é foda hoje?? HAHAHAHA Eu trabalho com beleza há quatro anos, mesmo tempo que me tornei maquiadora profissional. Ainda esses dias eu conclui: não se acaba com ditaduras criando outras. Não é empoderamento quando você impõe um novo padrão, é mais um cárcere. Eu tenho olheiras escuras, manchas de espinhas, pintas escuras e sardas de sol. Tem dias que eu sinto vontade de esconder tudo e ostentar uma pele bem feita, mas eu já me aceitei, já aposto em camadas mais finas de maquiagem, saio para ver as amigas de cara limpa. Às vezes as pessoas se chocam e questionam se estou passando mal ou se estou com sono hahahahahahahahaha Mas confesso que é um processo que estou adaptando. Não deixo de usar maquiagem, mas não vivo em função. E quando penso em “beleza natural” é beleza natural mesmo, como eu sou de verdade. Se amar é libertador! ótimo texto, como sempre levantando as questões da maneira certa! <3

  • Bruna Valéria Rodrigues de Lim

    Adorei o texto, só disse verdades que muitaas não enxergam estão exatamente criando novos padrões e fazendo mais do mesmo com nomes diferentes, podemos sim ser lindas nos aceitando e fazendo aquilo que temos vontade sem depender de alguém ditar regras, pessoas que vivem buscando perfeição são frustradas e sofrem, é o amor próprio que conta descobrir o que nos faz bem e ser feliz..

  • carol gonçalves

    voce disse TUDOOOO!!! eu vou ser sincera, nao gosto mto de maquiagem pq acho bizarro mta cor em mim, e tem hr q me olho no espelho e penso foda-se, sou bonita vou na rua assim sem nada alem do protetor, (pq na verdade toodo dia passo bb cream) entao eu ate q me sinto segura, mas vem essas mulheres modelos, e msm alicia levantando essa bandeira, e o unico q a gente pensa é: pra elas é mto facil pq elas sao lindas de pele linda!!!! fico chateada com isso e penso igual…se uma mulher se sente linda com maquiagem, tem q usar mesmo!!! realmente é uma faca de dois gumes, brigada por essa leituraaa!

  • Renata Teles

    Só uso protetor e batom até no trabalho haha

  • Lucimar Brum

    Mas no fim todas ficam envaidecidas com um elogio e ninguém vai conseguir tirar das mulheres a vontade de se sentirem cada dia mais lindas em qq padrao…acho esta luta impossível de ser vencida a curto prazo e os padroes estéticos demorarao décadas para serem reescritos…Mas concordo…novos padroes livres de novos padroes….

  • Thalita Sousa de Medeiros

    Super curti o texto. Muito verdade tudo isso, de que uma aparência natural exposta, só vale pras peles perfeitas. Viva a maquiagem! Mas tbm viva ao direito de sermos reais, com nossas imperfeiçoes e o livre arbítrio de nos expormos ou não naturalmente. Afinal, uma autoestima elevada dispensa comentários…