Estou ensaiando esse texto sobre slow fashion aqui há bastante tempo. Ele, como quase sempre, começou com uma discussão no grupo do Modices no Facebook que virou uma longa conversa com a Carla por whatsapp e, por lá, salvamos as mensagens que achamos que eram essenciais ao texto. (Se você tinha alguma dúvida de como surgiam os textões™ por aqui, é assim. Rs)

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Mas foi escrevendo ele que percebi que estávamos pensando no slow fashion e no consumo com consciência de forma invertida e que talvez seja essa a razão de muita gente não conseguir aplicar os princípios na vida prática. Qualquer pessoa com bom senso e um mínimo entendimento do mundo, entende muito bem os princípios do consumo consciente, sem radicalismos, e sabe que deveria seguí-los por um questão de responsabilidade com o mundo e com a sociedade.

Entender não é tudo, porém. Eu mesma que escrevo e discuto consumo consciente com muita frequência, ainda sucumbo aos desejos de moda e à compra compulsiva. Aliás, oi, meu nome é Nina e eu sou uma compradora compulsiva – como acontece com outros distúrbios e vícios, um comprador compulsivo está eternamente em recuperação, não existe “cura”, vivemos numa eterna tentativa de manter nossa compulsão sob controle. Estou, sim, sob controle e recuperada. Que bom para o meu bolso e para a ínfima porcentagem de mundo que eu sou capaz de mudar.

O que chamo aqui de compra compulsiva não é a aquisição de volumes de coisas desnecessárias. Para mim, compra compulsiva é a aquisição do que a gente não precisa, simplesmente pelo prazer de comprar - e não em busca do prazer que aquele objeto pode te trazer. Experimentar um vestido e se sentir maravilhosa, com a autoestima renovada e comprar, mesmo que você não necessariamente precise de um vestido novo no armário é fazer algo por você mesma. Estar triste/entediada/arrasada/animada/com dinheiro sobrando e comprar um vestido novo, é compra compulsiva e nenhuma dessas opções é um motivo responsável para tirar o cartão de crédito no bolso.

O que quero dizer com isso é que antes de lermos sobre consumo com consciência e pensarmos que seríamos incapazes de sermos felizes dessa forma, talvez tenhamos que mudar nossos hábitos de forma geral, nosso jeito de enxergar a vida e principalmente a velocidade em que procuramos e cansamos de coisas que nos dão prazer.

Quando a gente percebe que pode consumir devagar, sem uma necessidade/desejo fulminante, acaba comprando menos e com mais sabedoria. Mas para chegar aí, temos que começar a desacelerar em todos os aspectos possíveis. O fast fashion é um reflexo enorme da aceleração do mundo: diminuímos as barreiras da comunicação, a informação chega muito rápido, fica velha muito rápido e na mesma velocidade é substituída por nova informação consumida com a mesma ferocidade. Então, num mundo em que tudo fica velho em 1 segundo, ficamos viciados em renovar tudo que podemos, da forma mais rápida possível.

O ponto é: precisamos nos acalmar. Quando a gente se acalma, consegue ver com mais clareza o que é urgente e o que não é. Para quem tem teto e armário, comprar roupa nunca é urgente – a não ser em casos totalmente especiais. Temos que começar a nos desfazer dessa ideia de que vale tudo quando “estamos precisando de um calça jeans” ou “quando o negócio aperta no nosso closet”. Roupa não é comida, não é água, não é descartável. Roupa é um bem durável para ser usado e conservado – e não descartado na primeira oportunidade. Moda é diversão, sim, mas o ato de comprar não deveria ser.

Muitas vezes, a gente sente uma vontade louca de comprar, de fazer um agradinho a si mesma em forma de produtos bonitos e legais e então, justificamos para nós mesmas (porque somos mulheres inteligentes) com ótimos argumentos que pre-ci-sa-mos daquela bolsa ou daquele sapato. Fomos levadas a pensar assim, ensinadas por filmes, séries, livros e todo um conteúdo criado especialmente para que nós mulheres ligássemos a ideia de possuir o novo, de estar em dia com a moda, de ter uma roupa antes de todo mundo com o conceito de felicidade.

O que proponho aqui é uma reflexão e uma tentativa de acalmar o nosso “instinto consumidor”, antes mesmo de começarmos a tentar o consumo consciente na prática. Vamos desacelerar, viver um dia de cada vez e ir substituindo essa vontade por coisa que realmente deixam a gente feliz. Eu tento daqui e vocês daí, que tal?

||||| 65 amei! |||||

Sobre o autor

editora executiva

29 anos, publicitária, feminista imperfeita. É Editora Executiva do Modices. Escreve sobre moda, bebe uísque e ama gatos. Se divide entre ser totalmente racional e acreditar em unicórnios. @ninaribeiro no Insta.

  • Kerilin Saka

    “Num mundo em que tudo fica velho em 1 segundo, ficamos viciados em renovar tudo que podemos, da forma mais rápida possível”. Acho que é exatamente isso! Cada hora a moda se reinventa e a gente quer acompanhar, tem gente que tem grana pra isso, mas a maioria não tem, nessa, se vai o limite do cartão de crédito, nossa sanidade mental, e nossa criatividade na hora de aproveitar o que já temos, mesmo que não esteja mais tão assim.. na moda.

  • Bruna

    Adorei o post :)

    Saudades de quando as peças chave de moda/vestuário podiam ser divididas em décadas… Mentira, nasci nos anos 1990, mas bem que eu gostaria saber como as mulheres eram influenciadas pela moda antigamente. Acho que vou estudar história da moda :D

  • Carol Costa

    Somos estimuladas o tempo inteiro a comprar, comprar e comprar. Por isso acho super importante discutirmos mais sobre consumo consciente, pena que nem todo mundo se interesse por este assunto. Outro dia também postei no meu blog a respeito disso e houve pouquíssimos acessos e nenhum comentário… :(
    http://dibobis.blogspot.com.br/

  • Fabrícia Chicata

    In-crí-vel. Faço Design de moda e compartilho da mesma opinião.