Nessa última semana, você provavelmente leu ou ficou sabendo da matéria da Veja sobre Marcela Temer e como supostamente o vice-presidente era um rapaz “de sorte” por estar com uma mulher bela, recatada e do lar. Provavelmente também você reparou que uma das características mais importantes para valorizar Marcela era o fato de ela preferir saias na altura do joelho. Nada contra Marcela, nada contra saias na altura do joelho (inclusive tem um post inteirinho sobre elas aqui), nada contra mulheres recatadas e do lar (o feminismo permite que essa seja uma escolha e que ela seja respeitada), tudo contra matéria machista que vestida em pele de jornalismo dizendo que “isso que é mulher de verdade”.

Assim como a primeira reação ao #belarecatadaedolar, essa maravilhosa hashtag com mulheres sambando na cara da sociedade patriarcal, foi uma declaração de resistência aos padrões machistas, a minissaia foi nos anos 60 também uma peça de resistência e quebra de padrões.  A gente já falou bastante por aqui sobre como algumas peças de roupas e alguns ítens de maquiagem podem ser vistos como símbolos de resistência e luta feminista.

Porém, bem antes dos anos 60 chegarem abalando as estruturas, a minissaia já existia como peça de vestimenta. O primeiro vestígio de existência dela data de 5000 A.C., acreditam? Recentemente, arqueólogos acharam umas pequenas estátuas representando mulheres de minissaia, não muito diferentes das que a gente conhece hoje em dia. A antiga civilização egípcia também era adepta da minissaia, para homens e mulheres, provavelmente pelo frescor e praticidade dela – mas vai saber, de repente eles gostavam do estilo mesmo.

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Alguns milhares de anos depois, já no século XIX, as minissaias eram quase impensáveis. Era ~entendido que mulheres eram mais frágeis, vulneráveis e deveriam se manter longe de assuntos masculinos como qualquer atividade física e a política. As roupas da época, com saias longas e pesadas e corseletes apertados refletem muito bem a contenção da mulher e seu confinamento à casa. Essas características de vestimentas foram carregadas até o início do século XX.

Na década de 20, com o fim da primeira guerra, as discussões em torno da emancipação da mulher finalmente começaram a tomar força e muito da sensação pós-depressão (causada por uma guerra) levaram ao aparecimento das flapper girls - uma nova mulher jovem, mais ousada, mais dona de si, que subiu a bainha da saia para o joelho, causando um furor até o início dos anos 30 quando as bainhas voltaram a cair para os pés e o estilo recatado se tornou mais adequado com o início da segunda guerra.

Porém, numa virada de roteiro digna de série do Netflix, os gastos da segunda guerra obrigaram que fosse feito um “racionamento” no uso de tecidos e, novamente, as saias foram alteradas e ganharam bainhas na alturas dos joelhos. E por que isso é importante? Porque os pós-guerra nos países vencedores (e portanto ricos que controlam o consumo e a moda) são sempre marcados por uma explosão de “felicidade” que se reflete diretamente no ato de consumir, principalmente adquirir objetos indisponíveis durante o período de guerra. Então, ao final da segunda guerra, Christian Dior lança o seu New Look: elegância, riqueza, saias cheias, muito tecido nobre, alfaiataria.

Mas o mundo estava em um momento diferente. Enquanto o New Look enchia os olhos e os armários de uma burguesia sedenta pela volta aos velhos costumes, os jovens e artistas estavam em outro ritmo. Então, as minissaias começaram a ensaiar a sua volta, mas não necessariamente nas ruas: elas apareceram em desenhos de pinups nos anos 40, no figurino feminino nos filmes de Sci Fi nos anos 50. Na moda da vida real, porém, até o fim da década de 50, as mulheres jovens deveriam se vestir como suas mães, não havia moda feita especialmente para garotas.

E aí, vieram os anos 60 e as gerações mais novas formadas de jovens adultos começaram a ganhar mais consciência, força social e poder aquisitivo. Há, nesse momento, pela primeira vez a sensação de que a juventude tem o poder de reagir a antigas regras e maneirismos e ela vai ganhando voz e espaço para assumir as próprias visões políticas. Consequentemente, a moda que antes era apenas uma repetição de referências, passa a ser um símbolo de resistência, um símbolo do que pode ser novo e fresco na sociedade.

Spectators and models at a Mary Quant fashion show

Como você deve saber, os anos 60 foram especialmente importantes para as mulheres. Nesse período, vemos a desconstrução do mito da mulher “do lar” sempre feliz (pois é), a expressão da vontade feminina de assumir outros papéis, um aumento enorme da participação da mulher no mercado de trabalho, um aumento significativo de inscrição nas universidades e a chegada da libertadora pílula anticoncepcional. As mulheres estavam sentindo que podiam ser livres para tomarem suas próprias decisões, expressarem suas vontades e usarem seus corpos da forma que achasse melhor.

minissaia então torna-se um dos maiores símbolos dessa liberdade recém conquistada. Vestir uma saia curta deixou de ser algo puramente estético e virou um ato político, um ato de contestação dos padrões femininos e a minissaia foi adotada por mulheres à frente do debate e de protestos feministas. Consequentemente, a minissaia se tornou moda assim como a própria juventude (e agora mães desejavam se vestir como suas filhas).

Mary Quant, conhecida como a mãe da minissaia (tem post sobre ela aqui), foi a primeira a produzir e vender – e nomear! – a saia curtinha. Como era de se esperar, ela era jovem, londrina, do rock, e queria refletir o novo momento de sua geração através da moda e quebrar de vez a dominação da moda parisiense da época. Assim como Quant, Andrés Courreges foi outro precursor da bainha bem alta e chocou o mundo da mundo (até porque ele era francês) com comprimentos super curtos, e merece créditos já que ajudou e muito na aceitação do mini. E as novas mulheres abraçaram a minissaia.

Já nos anos 70, por uma questão de evolução da moda, as saias “da moda” ficaram um pouco mais longas – pensa que as saias não podiam ficar mais curtas e a moda vem sempre “negando” a tendência anterior – mas não tão longas assim. Mulheres como Gloria Steinem, jornalista militante feminista, continuaram a usar a minissaia como um ato transgressor, em comícios e discursos, provando que mulheres podiam ser fortes e usar as roupas que tivessem vontade. Aos poucos, a minissaia foi se tornando uma peça aceitável até mesmo em ambientes de trabalho e perdendo seu valor de rebeldia.

Como era de se esperar, nos anos 80, a minissaia ganhou uma repaginada. Inspirada no look colegial, o perturbante look Lolita ganhava o mundo estabelecendo como padrão de beleza a beleza infantil quase andrógina, hipersexualizando a garota adolescente apaixonada por minissaias. Com o passar da década, mulheres trabalhadas no girl power, como Madonna, foram “retomando o controle” da peça icônica e usando-a de forma adulta, naquele estilo grudadinhas e metálicas.

spicegirls

A mesma coisa aconteceu nos anos 90. Enquanto Britney Spears insistia na sexualização do look colegial com seu “…Baby One More Time”, as Spice Girls vieram redefinindo a minissaia mais uma vez com seu clamor pelo girl power. Assim como elas, outras artistas como Beyoncé e Christina Aguilera também tinham figurinos marcados pelas minis, sempre na linha tênue entre a fantasia do infantil e expressão da liberdade sexual feminina. Por mais que na época, a revista Rolling Stones tenha definido isso como “um cheesecake feminista“, a verdade é que elas mostraram para meninas no mundo inteiro que não é o que você veste que define seu valor como mulher.

O final dos anos 90 e início dos ’00 foi marcado por um momento jeans, jeans e mais jeans da moda, e as minissaias não escapariam. Talvez por terem finalmente sido encaradas como uma peça básica do armário feminino, a minissaia se tornou peça permanente em nossos acervos pessoais. Agora, na nossa década de ’10, ela é simplesmente uma saia, mas não porque ela perdeu o seu valor como símbolo, muito pelo contrário.

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A minissaia é uma expressão de conforto com a própria sexualidade (assim como o batom vermelho, como já falamos algumas vezes por aqui) e se adaptam aos estilos das mais diferentes mulheres. Mas, hoje somos transgressoras e donas de nós mesmas não porque estamos usando a saia, mas porque somos assim e ainda temos muito a conquistar pelo mundo – usando minissaia ou não.

***

Seria maravilhoso terminar esse texto dizendo que conquistamos tudo isso que estamos lutando para ter desde os anos 60, não é mesmo? Mas como falamos no início do texto, ainda temos homens que gritam a vulgaridade dos comprimentos curtos e determinam o nosso valor através das nossas escolhas de vestimenta. Ainda temos uma sociedade que acha que uma mulher de saia curta não merece respeito e pode ser sexualmente abusada por isso. Ainda vivemos num mundo em que mulheres precisam protestar pelo direito de usar o que quiser sem serem estupradas, como aconteceu em 2014 no Quênia.

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Então, ainda vai ter muito protesto sim, vai ter muita saia curta, muito #freethenipple, muito #belarecatadaedolar, muito escândalo pra dizer que “ó, sua opinião machista do que devemos ou não vestir vale nadinha”. Ainda vai ter muita minissaia, muito batom vermelho e muito símbolo de “rebeldia” até todo mundo entender direitinho que o que uma mulher usa não determina seu valor, não determina quem ela é, não determina seu lugar na sociedade.

Esse post usou como fontes esses dois outros: MIC e Random History

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