Quem me acompanha no Instagram, sabe que eu acabei de voltar e uma viagem a Machu Picchu. Ao chegar no hotel, o taxista cumprimentou o meu marido. Eu estendi a mão também, ele passou direto e entrou no carro. “Ele não deve ter visto”, foi o que pensei. Ao chegar na recepção, o atendente não achava a reserva, que eu havia feito, porque procurava insistentemente no nome do meu marido sem nem me perguntar qual era o meu nome. “Ele não deve ter me visto com ele”, foi o que pensei.

Na hora de entregar as duas chaves do quarto, ele colocou tudo em um envelope único e depositou confiantemente na mão… do meu marido. “Será que ele não percebeu que estamos juntos?”, pensei. Com um sorriso extremamente simpático, ele nos deu as boas-vindas e nos ofereceu um Pisco Sour no bar do Hotel. Um Pisco Sour. Entregue diretamente na mão do meu marido. Zero Pisco Sour para mim. “De novo, ele não me viu”, pensei indignada.

what

No dia seguinte, fomos a um passeio com o guia. Ao dar bom dia, ele apertou a mão do meu marido, e virou de costas para a minha mão estendida. No almoço, o garçom entregou a conta somente ao meu marido. No primeiro dia. No segundo dia. No terceiro. No quarto. Até chegar no nono e completar a cartela inteira de invisibilidade feminina.

E sabe, dentro disso tudo o que foi pior? O meu marido, que apoia o feminismo, é extremamente esclarecido, se revolta junto comigo em nossos momentos de luta pelos direitos das mulheres, simplesmente não percebeu. E elogiou todos os serviços que tivemos. E achou a cidade extremamente hospitaleira. A mesma cidade que ignorou a minha presença a maior parte do tempo.

giphy (96)

Eu não pude deixar de pensar que é assim que funciona o privilégio e é assim que funciona a mente do privilegiado – independente do grau de consciência que ele carrega. Não ser considerado não faz parte do mundo dele e a falta de vivência joga uma cortina por cima de fatos óbvios. O invisível aos olhos não é o essencial, como diria Antoine de Saint-Exupèrie, é a minoria. E ela é invisível a todos os olhos – inclusive aos quase treinados para enxergar tudo.

A vigilância continua para que ela nunca passe despercebida pela gente.

giphy (97)

_ a Iana Villela é feminista e agora escreve aqui no Modices toda semana sobre o assunto e outros ismos importantes _

||||| 23 amei! |||||

Sobre o autor

Iana Villela é redatora por profissão e lazer. Escreve sobre a vida, sobre moda, sobre o marido, sobre o céu e, se duvidar, até sobre você. Deu mole, ela está escrevendo! :)

  • Susany Oliveira

    O feminismo tem me aberto os olhos para muita coisa, mudei muito graças a ele. Hoje vou em busca dos meus direitos sem medo. Ainda sim, fico abismada com as coisas que vem acontecendo conosco. Até quando?! :(

  • carol gonçalves

    que texto maravilhoso.

  • Érica Moraes

    Morei por 3 meses no Peru e me senti assim todos os dias. O único momento em que eu não era invisível era quando eu andava de shorts (e minhas coxas grossas) em algum lugar. Parecia que eu estava ofendendo a população. Voltei ao Brasil achando que aqui era o país mais livre do mundo… bem triste essa sensação.