Semana passada a marca Botswana foi condenada a pagar indenização para uma vendedora obrigada a alisar os cabelos. Ignorando o fato de que o nome da marca remete a um país da África (onde cabelo liso não é a predominância), tem uma galera dizendo que “foi apenas uma sugestão” e que “por se tratar de uma marca de moda, é aceitável que a empresa peça que os funcionários sigam uma tendência”.

Conhecem o ditado “manda quem pode, obedece quem tem juízo?” Juízo, nesse caso, é a necessidade de um emprego e quem pode é o empregador. Não é preciso ser nenhum gênio para entender que pedido de patrão é ordem e acatar ou não é a diferença entre ter salário no fim do mês. Por isso, não nos venham com essa de sugestão.

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Outro ponto que eu sempre converso com as minhas amigas é que tendência é o que há de mais raso nesse mundo. Não que seja ruim (eu mesma tinha um blog de moda chamado É Tendência), é raso no sentido literal da palavra. Ela está por cima, apenas cobrindo e sem qualquer profundidade. É o casaco, a saia, a bota. É a casca. E é exatamente somente até aí que uma marca de moda pode fazer sugestões aos seus funcionários.

Cabelo não é acessório. Ele pode até ser uma fonte de criatividade e expressão e para muitos símbolo político de luta e resistência (alô, black power!), mas ele faz parte da sua natureza biológica. Pedir que alguém mude uma característica de raça para se assemelhar ao padrão repressor é uma violência sem tamanho – e não é muito diferente de pedir para mudar o tom da pele. A pergunta que não quer calar é: por que uma marca acha que pode invadir de forma tão brutal o corpo de uma mulher?

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Além do racismo, claramente presente no pedido, existe também a questão da objetificação. A moda pode ditar roupas, mas a partir do momento que ela dita padrões estéticos é onde a violência tem o seu pontapé inicial. A moda é peito grande, a moda é barriga negativa, a moda é thigh gap, a moda é saboneteira, a moda é cabelo liso, a moda é nariz pequeno…

Tudo que a gente pode tirar dessas “tendências” (algumas já mortas e outras a pleno vapor) é que a moda, nesse ponto, é excluir. É delinear um quadrado bem pequeno onde pouquíssimas cabem e fazer com o resto se esprema para se encaixar. É nesse ponto que a moda mutila as meninas cirúrgica e emocionalmente.

Esse cenário que vivemos, hoje de forma mais branda, mas ainda muito cruel e presente, é o pai. O filho é a marca pedindo que o peso seja diminuído, que o cabelo seja alisado. A resistência é não deixar passar. É desnaturalizar. É não aceitar sob hipótese alguma.

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No fim, o custo da indenização foi de R$2.000. Saiu barato. Saiu bem barato.

_ a Iana Villela é feminista e agora escreve aqui no Modices toda semana sobre o assunto e outros ismos importantes (por enquanto você pode ler mais do que ela escreve aqui) _

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Sobre o autor

Iana Villela é redatora por profissão e lazer. Escreve sobre a vida, sobre moda, sobre o marido, sobre o céu e, se duvidar, até sobre você. Deu mole, ela está escrevendo! :)