Era um daqueles dias de novela do Manoel Carlos. Tava eu e Vitor andando #deboas pelas ruas arborizadas do Leblon, quando avisto na esquina seguinte o cartaz com a capa da edição de Outubro/2015 da Vogue Brasil. Era uma edição em homenagem ao Riccardo Tisci, diretor criativo da Givenchy (que dizem pode ir pra Dior) com duas musas da sua gang: de um lado a italiana Mariacarla e do outro a inglesa Naomi Campbell. Mas opa, péra, cadê a Lea T., gente?

capa-chamada

 

Como que a capa de uma revista do Brasil não prestigia modelo brasileira? E assim, não é qualquer modelo. O T. da Lea T. é de Tisci, porque ele emprestou seu sobrenome pra ela criar seu nome artístico. Sim, eles são melhores amigos há anos e foi ele que lançou ela na carreira de modelo quando a colocou na campanha da Givenchy (que foi um sucesso!) em 2010. E ele se tornou habitueé do país, se esbaldando no carnaval e nos usando de referência em tantas criações (da camisa best-seller com FAVELA nas costas à cenografia também inspirada nas favelas cariocas no último desfile da marca na NYFW) por causa dela. Num momento que o mundo debate a questão dos gêneros a Vogue brasileira dá aula de como ser reacionária.

 

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Se minha indignação com a capa de Outubro tava pouca, veio a capa de Novembro pra me tirar do sério de vez.

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Vogue Carol Trentini dreads
Edição ~especial~ do Rio de Janeiro com Carol Trentini (loira de olhos azuis) de dreads.
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Essa é a nova onda. Desde que a Zendaya apareceu no Oscar de dreads a galera das modas tá achando que dread é simplesmente uma ~tendência~

 

Atenção aqui, galere, a Zendaya não usou dreads no Oscar só porque ela acha cool. Ela fez isso como um ato político, representando a sua cultura, pra através da imagem dela milhares de garotas pelo mundo pudessem se empoderar, ver que seu cabelo étnico é lindo e combina sim com festas de gala ou qualquer outro lugar onde elas queiram estar.

Zendaya
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Só que a galera pega a imagem da Zendaya e replica a estética esvaziando ela de sentido. Isso é apropriação cultural. Primeiro, foi Miley Cyrus no VMA (te adoro, amigue, mas manera aí que tá feio), editorial sensual da Pugliesi (outra branca loira) rodando a internet e agora essa capa da Vogue. Não dá, gente. 2015 já tá acabando e esse povo da Vogue continua alienado do que acontece debaixo do seu nariz?

 

Cadê representatividade? Cadê as negras do Brasil na capa da revista? 

Sim, porque as duas negras que apareceram na capa da revista nos últimos anos eram gringas (Rihanna e Naomi Campbell). E só em 2015, a Vogue Americana colocou 3 negras (Serena Williams, Beyoncé e Lupita) na sua capa.

 

E é bem simples, Vogue Brasil: quer mostrar dread na sua capa de revista? Então o faça numa garota negra que, por mais que vocês tentem insistentemente ignorar ao longo dessas quase 4 décadas, vem a ser a cor da maioria da população do país que você diz representar.

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Sobre o autor

blogger in chief

Carla Lemos é a criadora do Modices, um dos mais influentes blogs de moda do Brasil. Carioquíssima, Carla cursou as faculdades de moda e publicidade, foi stylist de globais e há 7 anos criou o Modices para falar de moda de um jeito mais leve e divertido.

  • Mari

    Concordo que a vogue seja alienada, mas, não sei se entendo bem esse conceito de apropriação cultural!! Isso me amedronta pelo fato de causar o efeito inverso, mais desigualdade e divisão, afinal de contas, nós brasileiros temos muitas raças em nossos genes, então porque essa diferenciação, isso é da branca e isso é da negra? Talvez eu realmente não entenda.

  • Raquel

    Por mais blogueiras como você, que debatam racismo, sexismo e outros “ismos” do mal, que se posicionem diante de temas desconfortáveis! Parabéns pelo conteúdo antenado com as mudanças de comportamento, por expor temas que muitas pessoas preferem que sejam empurrados para debaixo do tapete! <3

  • Aline Beatriz

    Mas Carla, me explique, porque apropriação cultural é tão errado? Eu entendo a questão que você falou sobre só colocarem a cultura negra mas nunca negras, e concordo, só ainda fico perdida na questão de usar algo de outra cultura seja tão errado .. Porque se for assim, nós brasileiras,usar por exemplo kimonos seria errado não? Enfim, só estou tentando entender mesmo rs

    • http://modices.com.br/ Carla Lemos

      Ó no exemplo do Brasil, os colonizadores se apropriaram (do que lhe convinha) da cultura indígena (hábitos, vocabulários e alimentos) e exterminaram as pessoas (e até hoje continuam matando).

      É assim que acontece apropriação cultural, quando a classe dominante usa de elementos de uma cultura oprimida separando-as do seu povo e seus significados.

      A própria Zendaya no Oscar sofreu racismo no Oscar por estar usando penteado étnico. A apresentadora do E! ao ver os dreads fez comentários, sabe? Quando negro usa os elementos da sua cultura ancestral ele é julgado e marginalizado. Esse é o problema da apropriação cultural.

      Outro exemplo de apropriação cultural foi no baile do MET esse ano. Uma exposição em homenagem à China e SJP vai com adereço de ano novo chinês na cabeça, a JLo vai com um dragão enrolado no corpo. Elas pegaram elementos rasos e clichês da cultura chinesa — isso é apropriação cultural.

      Sabe quem deu aula no MET? Rihanna <3

      Porque ela não foi "fantasiada" de chinesa, ela foi a ÚNICA que usou vestido de um estilista chinês. Isso é respeito. Porque ela foi quem se interessou em saber o que tava acontecendo no país e homenageá-lo. Enquanto todo mundo dissemina a ideia de que na China só existe moda copiada do Ocidente, ela mostra que lá tem estilista inovador e cheio de talento :)

      • Priscila Willrich

        Ontem comprei uma Glamour e me decepcionei, É só eu ou as revistas do Brasil não têm a nossa cara? São puras imitações europeias, até as roupas dos editoriais de moda não tem nada a ver com a nossa realidade. Falta sim explorar as belezas do Brasil, as mulheres Brasileiras, as negras e as loiras também, mas de uma forma mais autêntica. Hoje prefiro os Blogs de moda que estão muito mais a frente em termos de Moda, e tudo mais….

        • Priscila Willrich

          E também acho que está na hora de colocarem modelos Plus Size, porque não?

        • Frida Bzar

          Aê!!!! Até que enfim alguém q tenha a mesma visão que eu com relação a Glamour…não compro, não leio, não dou ibope pra o que não me representa. Cansei de ser uma oprimida que admira o seu opressor! ♡

  • adm18567

    modices maravilhoso como sempre!
    carla, vocês poderiam fazer um post mais aprofundado sobre apropriação cultural por favooor?
    sei que é um tema que gera muita dúvida e é sempre bom ler mais sobre o assunto
    beijoos

  • Carol Lancelloti

    Carlinha, você sabe que super respeito e considero sempre sua visão e opinião. Mas sinceramente, não senti falta da Lea nessa capa. Achei uma capa bem bonita, com duas mulheres que já são fora do padrão pra uma revista de moda (apesar de ainda seguirem o padrão da magreza). Sem falar que a Mariacarla também é musa inspiradora da Givenchy tanto quanto Lea, e que a marca ou o Riccardo (íntima rs) têm o direito de nem sempre estar grudados com LeaT. Minha opinião, apenas. As vezes, a Lea negou, as vezes, não tinha data rs Não sei qual foi o motivo mas não penso ser um retrocesso só porque Lea T. não está na capa… Sim, perderam a oportunidade, concordo. Mas não me revolto tanto por isso… Inclusive, penso que a Mariacarla representa também, de certa forma, a questão do gênero neutro nas aparências e no comportamento. Ela não possui a beleza clássica feminina (eu acho ela linda, tá?).

    Quanto ao assunto de se apropriar culturalmente, eu pessoalmente penso que a cultura está aí pra isso. Entendo que não posso falar no lugar de uma mulher negra que se sinta ofendida, e que também precisamos falar e refletir sobre o assunto a partir do momento em que uma negra se ofende. Óbvio! E também penso que a VOGUE brasileira deveria sim, exaltar mais suas negras e morenas, colocando-as nas capas. Até aí, tudo certo! Mas não vamos confundir as coisas: loiras, brancas, ruivas, seja lá o que forem, podem sim se inspirar e se apropriar de uma cultura. Isso é mistura, isso é abrir a mente, isso é prestar uma homenagem. Isso pode ser tanta coisa! E não é um bom ver isso finalmente virando moda em ruas, red carpets e revistas, ao invés de ser visto como algo “exótico e exclusivo, reservado a apenas uma cor de pele ou classe”? Vamos celebrar que o assunto está em pauta e achar bacana que meninas brancas (preguiça de ainda ficar separando gente assim, gente…) estão se apropriando de algo. Porque se estão, a mente mudou e elas estão achando bonito! Olha como muda o significado quando olhamos diferente, quando olhamos com esperança. Não é o fim do mundo Carol Trentini ou loiras usando dreads. Não podemos nos confundir e confundir o vilão. O fim do mundo é continuarem negando espaço e destaque para quem representa essas culturas em primeiro lugar. ;) Sem falar que, pra fechar, curti muito o comentário de uma menina no Facebook: ela disse algo como “mas por que negros e negras têm que sempre aparecer vestidos e caracterizados de sua cultura”? Realmente. Não é bem assim, gente. Provavelmente, se aparece uma negra toda caracterizada, o problema ia ser outro: “Só colocam negros caracterizados bla bla bla”. Eu penso que temos que parar de olhar somente pro lago ruim e olhar pro lado do progresso, porque ele acontece lento, mas está acontecendo. E eu escolho ver Carol Trentini caracterizada como um. Beijos!

    • Beatriz

      Parabéns pelo posicionamento, concordei em ambos os casos.

      • Carol Lancelloti

        :) obrigada

    • http://garimpomag.com Ana Mastrochirico

      parabéns! me representou nesse comentário. Também acho que essa divisão de brancos e negros precisa acabar, e isso, acima de tudo que precisa ser destacado em textos na internet a fora. E não somente o fato de apropriação ou falta de modelos negras, etc. Arrasou Carol!

      • Frida Bzar

        Sim, vai acabar quando o racismo não existir…o que não é o caso, pois ele existe! #ficaadica

        • Carol Lancelloti

          Ele ainda existe, sim. Mas atacar racismo com racismo e preconceito não é o ideal, ao meu ver. ;) União é a resposta. Beijo!

          • Frida Bzar

            Não existe racismo reverso…e só sofre preconceito o não-padrão, tá precisando deixar de ser reaça

      • Carol Lancelloti

        :)

    • karisa araujo

      Nossa que comentário foi esse gente??? Você está certíssima @[email protected]:disqus. Concordo com seu ponto de vista e também acredito que se as pessoas se preocupassem mais em somar cultura e não em mostrar que têmcultura diferente o mundo seria melhor e mais harmonioso!!!

      • Carol Lancelloti

        :) obrigada, Karisa.

    • Ana Cristina

      Olá Carol, eu também achava que era isso aí tudo que você falou. Mas dai assisti esse vídeo, que te passo o link. Ele é longo, e tem que ver até o final. É uma aula. Por exemplo, os turbantes. Quando uma mulher branca usa um turbante: que linda, que fashion, que moderna. Já uma mulher negra usando turbante é chamada de macumbeira (que não deveria ser usado como xingamento, mas dai é outro assunto complexo), que tá escondendo o cabelo “ruim” etc. Não são minhas palavras, não sou negra, mas são as palavras da autora deste vídeo que é e não é exagero, é a vivência dela, é o que ela escuta. Não é tão simples assim essa questão. Se quiser pula pro minuto 4:38.
      https://www.youtube.com/watch?v=o73oVBJVM2M

      • Carol Lancelloti

        Vou ver, Ana. ;) Eu não sei quem é que chama mulher negra que usa turbante de “macumbeira”, mas definitivamente, não sou eu. Não é legal. Não apoio isso, obviamente. Mas não é o que a VOGUE está fazendo, concorda? E também não acho nada de moderno meninas brancas usarem turbante. É mais uma escolha, um estilo… Enfim. E meu comentário, é claro, representa a mim. Nunca disse que a questão é simples, mas realmente penso que mutias vezes, as pessoas complicam mais do que resolvem. Beijo!

  • http://www.onovopreto.com Ianarã Bernardino

    Ai eu lembro que a Elle já colocou a Lea T. na capa e ultimamente vem dando show de inclusão nas suas ações. Ai eu lembro porque parei de comprar a Vogue. Amei o texto!

    • http://modices.com.br/ Carla Lemos

      A Elle tá dando aula <3

  • Mari Gomes

    Como eu amo esse blog! Vocês sempre discutem temas que geralmente são ignorados pela maioria de nós e dos meios de comunicação. Apropriação cultural é um problema e precisamos falar disso, sim.

    Entretanto, uma dúvida que tenho sobre esse tema é: mesmo que eu saiba o significado de um penteado como o dread ou de um acessório como o turbante eu ainda sim posso está fazendo m****?

    Sempre fico com essa dúvida quando vejo uma garota branca usando um turbante, enquanto eu, como uma garota negra, levei tempos pra poder me aceitar como tal e ainda mais usar um símbolo como o que citei.
    Também me pergunto a mesma coisa quando vejo roupas com estampas indígenas [geralmente norte-americanas] nas lojas por aí e eu não sei se seria errado usar.
    A incerteza só cresce quando penso que aqui no Brasil ao mesmo tempo em que temos a miscigenação discutimos pouco o racismo, que parece ser assunto só entre pessoas que sofrem com ele.
    Enfim, eu gostaria de uma explicação melhor sobre esse limite.

    De qualquer forma, parabéns ao Modices! <3

    • http://modices.com.br/ Carla Lemos

      Essa é uma questão muito boa, Mari <3

      Então, eu acho que dá pra mina branca usar turbante ou estampa indígena sim. Mas, pra usar tem que ter responsabilidade. Tem que ser respeitar aquela cultura e ajudar no seu dia-a-dia a descontruir o racismo (contra negros, índios, indianos, a cultura que seja).

      E é o que a galera mistura. O problema não são os indivíduos são as instituições!

      • Mari Gomes

        Agora sim, tudo ficou bem mais claro pra mim. Sem confusões instituição X pessoa. Muito obrigada pela atenção, Carla! <3

  • Maki De Mingo

    Ai, Carla, que amor esse texto, sério? EU nunca fui muito fã da Vogue, confesso, mas sinto cada vez mais como é ela é uma revista não só reacionária, mas que não vai entrar de maneira alguma no movimento de inclusão que tá rolando agora. Sinto aquela necessidade que eles têm de manter a ideia de que luxo e moda ~de verdade~ é só pra um grupo muito seleto de pessoas com um poder aquisitivo muito alto… Mas a gente bem sabe pela dança das cadeiras atual nas direções criativas de marcas muito conceituadas que essa imagem não vai colar mais, né?

    • http://modices.com.br/ Carla Lemos

      Mas esse é o problema, né? É só a Vogue Brasil. A Vogue America que é a Vogue-Mãe tá com uma postura bem diferente. Como eu citei no post só esse ano foram 3 capas com mulheres negras — inclusive com cabelo étnico. Então, quer dizer…

      • Frida Bzar

        Inclusive a vogue teen já traz essa diversidade…o próprio insta da vogue teen já representa essa ocupação…comparem aos instas das revistas brasileiras…#shameonus

  • Gabriela Peralva Dunham

    Vou perguntar sinceramente e espero que ninguém entenda como desdem (pq não é)… Para as negras uma branca usar dreads é algo ofensivo? Por que?

    • http://modices.com.br/ Carla Lemos

      O problema não é uma branca usar dread. O problema é uma revista que não coloca negra na sua capa querer usar elemento da cultura negra numa branca. Sacou?

      • Gabriela Peralva Dunham

        Entendi o posto de vista. Obrigada, Carla!!

    • Kárita

      Torna-se ofensivo quando você nota que essas revistas evitam as negras em sua capa, mesmo quando querem falar sobre algo da cultura negra.

      • Gabriela Peralva Dunham

        Então é um problema específico com a falta de representatividade das revistas, certo? Obrigada por explicar ;)

  • Mari

    Oi Carla,
    Agora sim entendi o cerne da questão! Muito obrigada pela explicação. Penso que, as mulheres principalmente, têm que se libertar dos esteriótipos impostos… Temos que aprender a nos amar e a destacar o que há de bonito em cada uma de nós, tipo nossa marca pessoal!Sou branca e tenho 32 anos, só agora consigo me amar com meus cabelos naturalmente cacheados, depois de muitos anos alisando, agora tenho maturidade e segurança pra asumir “essa sou eu” e sou linda assim!! Continue nos fazendo pensar e trocar exepriências, só assim crescemos. Parabéns pelo blog !

  • Mariana

    Acho SUPER legal o modices abordar esse tema. Mas o feminismo existe para além da internet. Eu faço parte de uma linha de pesquisa feminista há 6 anos e praticamente só vejo debates rasos em relação a essa questão da apropriação cultural, por exemplo. Cada uma fala o que acha e fica por isso mesmo. É claro que é bom alguém expressar sua opinião, mas é melhor ainda quando a opinião tem respaldo de um estudioso do assunto, que dedica sua vida a ler e refletir mais profundamente sobre as questões. Tudo isso para dizer que o entendimento do que seja “apropriação” e “cultura” é infantil na questão que concerne o post. Vamos ler mais outras coisas além de blogs feministas.

  • Mariana

    Li todos os comentários. Vamos pensar mais acerca do que seja cultura. É tanta coisa que não cabe num comentário, num post.. é reflexão pra vida.