A opinião da Nina sobre as novas formas de consumo e os rumos que a moda está tomando motivados pela preguiça de gastar dinheiro

“Vou viajar mas não vou comprar nada, porque não estou com vontade de comprar nada” – essa frase eu mesma proferi numa conversa recente com amigas no whatsapp. Logo eu, que aguardava ansiosamente qualquer viagem ao exterior para fazer umas comprinhas, que viajava com uma mala vazia dentro da mala de viagem. Eu já fui extremamente consumista e contei isso quando falei sobre slow fashion e a desaceleração da vida, e sobre como eu estava eternamente atenta para não voltar ao comportamento de compulsão de compras.

Aparentemente, estou curada. Na verdade, conversando sobre o assunto, eu percebi que muitas das pessoas do meu círculo pessoal também andam com uma preguiça enorme de gastar o dinheiro com coisas – preferindo investir em experiências ou até mesmo em roupas e objetos mas que “falem” mais ao mundo sobre quem somos e no que acreditamos. Sim, eu acho que a palavra que melhor define esse sentimento é “preguiça”.

Mas o que mudou? Lembro que, por volta de 2008, nós mulheres brasileiras de classe média privilegiada desenvolvemos uma leve obsessão coletiva – impulsionada pela obsessão global – por bolsas de luxo. Muitas blogueiras de ~moda viveram uma época da exibição das suas bolsas, quase como uma conquista de guerra ou como um troféu que as elevava a um status de tremenda importância. Mulheres à minha volta sabiam nomes de marcas até então desconhecidas, designers específicos e os nomes dos modelos mais desejados e suas coleções.

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Nesse momento, viajar era uma oportunidade real de adquirir esses bens e outros acessórios do mesmo gênero e parecia um ótimo negócio. “Ter” era importantíssimo, certo? Na época, inclusive, surgiram matérias e especialistas que afirmavam que era mais seguro investir numa bolsa de marca (que não desvaloriza) do que investir na bolsa de valores (que, bem, vocês já sabem). E desse frenesi, claro, surgiram outros mercados paralelos como as falsificações, as réplicas, as cópias-versões, os brechós, os importadores, que movimentaram rios e rios de dinheiro por causa de pessoas dispostas a gastar em média 2 mil dólares por objeto consumido.

Mas será que valia mesmo investir milhares de reais do seu bolso para algo que acabou parado no seu armário? Será que valia guardar dinheiro para adquirir um bem que perderia o valor emocional e o valor de moda assim que um outro semelhante aparecesse? Em que momento começamos a realmente pensar se valeria ou não gastar em algo que ia acabar no fundo do closet ou de uma caixa?

Para muita gente, o que mudou esse comportamento foi a mudança de espírito global, em que o “ser” se tornou mais importante que o “ter” e que estamos todos caminhando pra uma nova era de propósito e preocupação social/ambiental, antes de nos preocuparmos com posses. Eu sou bem mais cética, mas não menos esperançosa. Pra mim, o que mudou foi que essa galera, essa geração que fez a roda do consumo desenfreado girar, simplesmente amadureceu e cansou.

Toda uma geração que cansou de gastar dinheiro procurando status, afinal o hype consegue ser alcançado de outras formas, olha o Instagram aí que não me deixa mentir. Cansou de ter que se esforçar e ficar em lista de espera e “conquistar” objetos, já que eles estão aí em oferta por toda parte e todo mundo pode ter. Cansou do que não tem valor agregado algum, de objetos que não representam um conceito maior do que a aparente riqueza.

Essa é a geração que quer consumir, mas quer consumir diferente. Uma geração que quer coisas, experiências e sensações que traduzam a sua própria personalidade, que falem sobre ser feliz/inteligente/esperto/pleno/divertido/consciente. Uma geração que está redefinindo o valor do que considera caro ou barato.

Marcas, cês tão atentas, marcas?

||||| 39 amei! |||||

Sobre o autor

editora executiva

30 anos, publicitária, feminista imperfeita. É Editora Executiva do Modices. Escreve sobre moda, bebe uísque e ama gatos. Se divide entre ser totalmente racional e acreditar em unicórnios. @ninaribeiro no Insta.

  • Michelle Iglesias Bueno

    Essa é uma boa maneira de pensar, uma maneira otimista. Infelizmente, penso tbm na pessimista, em que na verdade as pessoas que ditam tendência estão fazendo girar apenas o ciclo de ter coisa X, coisa X virar popular, quem dita tendência odeia coisa X porque todo mundo tem, vamos ter então a coisa Y. Nesse caso, em vez de coisa, é um comportamento talvez. Mas na real, apenas é a roda do consumo girando. Se ela vai mudar ou não, ainda acho cedo pra dizer, porque mesmo na crise a economia precisa que estejamos sempre comprando :/