Considerações sobre uma temporada sem tempero
Rio de Janeiro,Este é o último dia de SPFW e, mesmo faltando poucas horas para dar adeus à Bienal, já sinto que vi tudo que poderia ter visto nesta temporada. Uma temporada sem-graça. Confusa e, sinceramente, entediante. A moda mudou. Mas, infelizmente, boa parte dos estilistas parecem insistir em pautar suas coleções na mesma fórmula de anos atrás: completamente inspirada nas coleções de grandes maisons. Salvo uma adaptação aqui e ali, o que vemos nas passarelas é um moodboard, uma colagem de tudo que estes estilistas viram de interessante no style.com . A criatividade foi tendência em baixa nesta temporada de moda brasileira.
O consumidor hoje tem um acesso muito fácil à informação de moda. Não dá mais para estilistas e clientes beberem da mesma fonte. A gente quer mais. De que vale um desfile, numa estrutura que vale milhões de reais, se ele vai só reproduzir a informação de moda que encontramos em sites e blogs meses antes? Como pode valer tanto peças sem nenhum esforço artístico?
O que acontece nas passarelas não é muito diferente do que é visto em lojas de socialites paulistas com suas versões “inspired” de itens de luxo (e que inclusive não tem preços nada acessíveis). A diferença é que ali, sob os holofotes das principais semanas de moda brasileiras, aquela que deveria “criticar” e incitar a evolução dos criadores nacionais, apontando de forma construtiva suas falhas, prefere esquecer as referências, fingir que não acompanhou nenhuma outra semana de moda no mundo, e ver todos aqueles looks desfilados como uma grande novidade. A imprensa brasileira de moda se esquiva da sua responsabilidade.
E não é que se nada mudar, se nossos estilistas não pararem de se “inspirar” em marcas internacionais, as pessoas deixarão de consumir e a indústria da moda vá quebrar. Mas, por quanto tempo ainda valerá a pena fazer o esforço de se “ilhar” durante quase um mês do ano, para “exaltar” a mesmice da moda brasileira?