Consumo consciente e meus privilégios de blogueira

Esses dias, logo após postar um look no Instagram, recebi um questionamento por lá de uma leitora, a Stephanie, e resolvi transformar em post por aqui para pensarmos a discutirmos o assunto todas juntas. Ela disse:

“Carla, você esta linda como sempre! (…) Só uma dúvida: você tem alguma parceria com a farm? É que o blog sempre fala muito sobre consumo consciente, mas te vejo com roupas novas de lá toda semana. Não quero ser chata, é só uma dúvida mesmo.” – @steblat 

Primeiro, obrigada pelo elogio e ó, você não está sendo chata mesmo! É um questionamento super coerente e necessário – por isso mesmo, resolvi transformar em post. Sim, a Farm é uma marca parceira (do coração) e fazemos alguns trabalhos juntos, como quando quando assumi o Instagram deles @adorofarm na convenção de verão e agora na inauguração da loja do Shopping Leblon. Tenho algumas roupas de lá que eu ganho de permuta e outras que eu compro mesmo – e isso não quer dizer que eu não viva ativamente o meu discurso do consumo consciente.

A primeira coisa que a gente precisa entender sobre consumo consciente é: consumo consciente não é o mesmo que não consumirConsumir de forma consciente é consumir com responsabilidade, é sobre fazer escolhas com mais sabedoria e autoconhecimento, é usar melhor os seus recursos próprios e os recursos do mundo para satisfazer suas necessidades (sejam elas concretas, práticas ou simplesmente emocionais).

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Por isso, cada pessoa entende e pratica a compra consciente de uma forma própria. Afinal, cada consciência é diferente, pois ela é formada de acordo com as suas necessidades e meios. Você determina o que é uma compra responsável para você de acordo com seu orçamento, com a sua vida social, com o tipo de roupa que você precisa etc. Uma pessoa que trabalha em casa não pode ter como padrão de compras alguém que trabalhe em ambiente formal. Quem tem vida social agitada tem um tipo de demanda diferente de quem é mais caseiro. Cada caso é único e vai bem além de funções práticas, como essas que falamos.

O primeiro passo para “aderir” ao consumo consciente é entender o que é uma roupa funcional para você de fato. Porque o importante é que toda peça que você adquira, ou tenha no seu armário, possua uma razão de ser além do fato de ser simplesmente bonita. A função básica da roupa é: (1) fazer com que você se sinta mais bonita, (2) te dar segurança, (3) expressar sua identidade, (4) manter você adequada ao estilo de vida que você leva, (5) suprir uma necessidade latente. Não necessariamente nessa ordem, que varia não só de pessoa pra pessoa, mas até durante suas fases.

rihanna

O que eu quero dizer é que com o tempo a gente aprende a “ler” na roupa se ela atende aos pré-requisitos acima e que é isso, somado ao nosso entendimento sobre o mundo, que define uma compra responsável e consciente. Nem todo mundo que se dedica ao consumo consciente vai aderir ao armário cápsula e nem precisa. Provavelmente, você vai ter fases em que vai consumir mais (como eu, que estou reformulando meu armário de verão) e outras que vai consumir menos, porque suas prioridades são outras. Vai ter um dia que você vai comprar várias peças na sua marca favorita.

Se o primeiro passo é entender que funções uma roupa pode ter na sua vida, o segundo é entender o mundo e como ele funciona: suas cadeias de produção, as indústrias e as estratégias usadas para te convencer. E só então, você pode formar a sua própria consciência de acordo com o que você precisa/quer e qual o impacto sua decisão tem/pode ter para o mundoisso é consumo consciente. A consciência como eu sempre digo é um caminho sem volta e, naturalmente, você vai ficando mais responsável com suas escolhas (e pode mudar até o que você considera sua marca favorita).

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O caso é que eu sou blogueira…

E um dos privilégios do meu trabalho é ter acesso a roupas, sapatos, maquiagens e produtos de beleza sem precisar tomar uma decisão de compra. Assim como saiu nessa matéria sobre mim no Ego, mais da metade do meu guarda-roupa eu ganhei. Você deve saber como funciona – tem uma tag (a “recebidos”) no YouTube dedicada a isso que, bem, é autoexplicativa. A questão é que eu sempre fiz a opção de ser mais reservada quanto a esse tipo de coisa e você não vai me ver postando tudo que eu recebo, assim como você não vai me ver usando qualquer marca/peça que recebi. Eu uso apenas o que eu realmente gosto e me identifico, mesmo quando é publicidade. Isso significa que a gente recusa muito anunciante e não é fácil. Essa é uma escolha que nós fizemos e fazemos diariamente, e é parte de assumir uma responsabilidade – mas esse é um papo pra outra hora.

Aqui no Modices, não tenho a intenção de induzir ninguém ao consumo pelo consumo ou dizer que você “tem-que-ter” alguma coisa. A minha consciência em relação ao consumo e aos insumos da moda é cada vez maior e é eu desejo passar isso para vocês da melhor forma, sem deixar de te mostrar peças interessantes e novas formas de usar, apresentar marcas que eu acho bacanas, compartilhar tendências e vontades e te inspirar.

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A gente também quer despertar a sua conscientização e autoconhecimento pra você saber fazer as suas escolhas independente do “aval da blogueira”. Por isso, a gente enche nosso conteúdo de posts com dicas para não errar comprando roupa online, como a fazer limpa no armário antes de ir as compras, conscientizando você sobre o processo de produção daquelas roupas baratinhasapoiando causas como o Fashion Revolution, entre tantos outros posts que você pode conferir aqui na tag [consumo consciente] e mais tantos.

O mais importante para você saber, depois disso tudo, é que esse não é necessariamente o jeito certo de fazer as coisas. Estamos em processo de desconstrução – por aqui e no mundo – e eu me orgulho muito de dizer que o Modices é mutável. Agora, de uma coisa eu tenho certeza: não se comparem com blogueiras. Você pode (e deve!) comprar uma peça que a sua blogueira favorita postou e que você se identificou. Mas, não precisa comprar tudo no mesmo ritmo da sua timeline.

||||| 54 amei! |||||

Sobre o autor

blogger in chief

Carla Lemos é a criadora do Modices, um dos mais influentes blogs de moda do Brasil. Carioquíssima, Carla cursou as faculdades de moda e publicidade, foi stylist de globais e há 7 anos criou o Modices para falar de moda de um jeito mais leve e divertido.

  • Márcia

    Consumo consciente leva em conta a origem: se as empresas envolvidas tem responsabilidade social e ambiental, a ética empresarial, a produção ( distância, o não trabalho infantil/ escravo).
    Não se trata só de ver se a roupa será usada mas de como/quem/em que condições foi fabricada, transportada e vendida. Se a matéria prima não agride (ou agrediu na produção) o meio ambiente.
    Conhecer (ou pesquisar) todos esses aspectos faz de nós um consumidor consciente (ou não).
    Consumir menos, reutilizar e reciclar também fazem parte dessa conscientização.
    Márcia

  • Mari

    Exatamente o que acontece comigo. Consumo consciente é algo que cresceu em mim e me fez querer mudar. Mas a mudança não acontece de um dia pro outro, nem de uma maneira única. Cada cabeça um mundo e cada mundo faz do jeito que acha melhor pra si. Além do que, como você disse, envolve todo um processo de desconstrução. Estamos imersos numa realidade que é difícil de sair. O mundo “fast” tomou conta das nossas vidas nos sendo apresentado com uma imagem de praticidade e facilidade, mas escondendo a má qualidade, exploração, destruição… Estamos tendo a chance de nos reorganizar. Um passo de cada vez e chegaremos lá, o importante é continuar.

  • Camila Barreto

    Carla, bom dia. Sigo você no insta a bastante tempo e com essa mania minha de julgar o livro pela capa, nunca me interessei em abrir seu blog, por achar que você era daquele tipo de menina rica, que só fala da Farm e da vida boa por ai… Ledo engano. Estou trabalhando consumo consciente na terapia e quando vi você abordando o assunto, já mudei um pouco o olhar e, quando li o post… Estou apaixonada por seu jeito de escrever. Você ganhou uma fã, admiradora total do seu trabalho. Desculpa o julgamento e parabéns por ser assim, preocupada com o mundo, abrindo mão de alguns dos privilégios de blogueira, em troca do que você acredita. Beijos enormes da sua mais nova leitora assídua.

  • Carolina

    Carla, penso se a dúvida da sua seguidora no instagram não estava vinculada à informação divulgada tempos atrás de que a Farm estava envolvida com trabalho escravo. É uma dúvida minha também, pois não vi nenhuma atualização sobre o caso depois.

  • Clarissa Cavalcante

    MARAVILHOSA! arrasou no post!!
    tenho acompanhado o amadurecimento do blog e vc é uma das únicas que fala dessa questão do consumo consciente sem ser chata ou forçada. parabéns!

    por um mundo com mais posts como esse <3

  • Anne

    Consumo consciente é uma coisa que a gente tem que praticar todo dia, pensando criticamente o que precisamos, se precisamos, se combina com nosso estilo de vida, se a produção é correta, enfim, temos que levar em conta muitos aspectos, e realmente varia de pessoa pra pessoa. Gostei muito do texto, estou aprendendo a ser mais consciente a cada dia!
    http://www.simpleness.com.br

  • Marcele Moreira

    Acabei de ler o post e achei muito interessante, talvez esse assunto tivesse que ser mais discutido entre nós blogueiras. Concordo quando você disse que cada um vai comprar de acordo com sua necessidade, por exemplo: se for uma executiva vai comprar mais roupas do que uma pessoa que trabalhe em casa. Mas ao mesmo tempo fiquei pensando…sei que a maioria das blogueiras trabalham por permuta, é muito comum, mas esse volume/quantidade de roupas, como elas vão impactar ecologicamente no futuro? Deixo essa pergunta para pensarmos e refletirmos.

    http://maisquefashionblog.blogspot.com.br/
    https://www.facebook.com/maisquefashionblog/
    https://www.instagram.com/maisqfashion/

    Beijos.

  • kkpeixoto

    Acho muito interessante. Mas não entendo onde vão parar tantos produtos! Algumas blogueiras descartam com leitoras (tentando burlar as leis do sorteio). A maioria não. Algumas vendem roupas usadas em brechos virtuais e quando entro link…5 peças! Sinceramente? Entendo não.

  • kkpeixoto

    Acho muito interessante. Mas não entendo onde vão parar tantos produtos! Algumas blogueiras descartam com leitoras (tentando burlar as leis do sorteio). A maioria não. Algumas vendem roupas usadas em brechos virtuais e quando entro link…5 peças! Sinceramente? Entendo não.

  • http://www.britanicred.com/ Laís Lima

    Achei interessante essa forma de pensar e nunca parei para ver isso. Eu sou super consumista, mas quero parar de gastar e investir em projetos pessoais. Gastos desnecessário está fora de cogitação, e nossa, seu post me ajudou muito!
    http://www.britanicred.com/

  • http://www.pinkisnotrose.com/ Carol Justo

    Adorei o post, explica muita coisa, as pessoas realmente acham que consumo consciente é igual a não comprar nada, além do que realmente precisa, como por exemplo, duas blusas, dois sapatos, duas calças, etc… E você explicou muito bem que não precisa ser assim, parabéns <3

    http://www.pinkisnotrose.com/