Desde que me formei em consultoria de imagem me pego pensando o quão importante é esse conhecimento para estilistas (e modelistas). Entender o efeito visual do design de suas criações em diferentes tipos de corpo. Poder descobrir quais modelagens e tipo de silhueta agrada mais seu público para desenvolver peças mais acertivas. Até no caso de uma fast fashion, garantir que a marca produza peças cujo design atendam de forma mais inteligente a todas as mulheres que entrarem na loja, seja o corpo pêra, uva, maçã ou salada mista.

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» do livro da Oficina de Estilo, Vista quem você é «

Ano passado, numa das viagens de trabalho durante o #modicesnaestrada, me deparei com uma exposição sobre miscigenação e identidade brasileira no saguão do Galeão. Isso fez com que eu passasse o vôo pensando como as mulheres de cada estado tem um biotipo diferente. Baianas são voluptuosas, pernambucanas tendem a ser mais altas e as paraibanas baixinhas e de estrutura óssea mais larga. Um único país, a mesma região, lugares tão próximos e com biotipos tão distintos.

Esses dias a Carol Burgo tava falando que um dos problemas da discrepância entre a criação de moda e as curvas femininas é o desenho de moda. Logo na primeira aula da disciplina na faculdade a gente aprende a usar de base para nossas criações um modelo de corpo humano sem forma, baseado apenas em definições de altura (quanto mais longílinea mais curtido) e membros, que não leva em consideração estrutura óssea (uma proporção de cintura condizente com a OMS, por favor!) e outras proporções e circunferências que são tão relevantes no vestir. Por que as aulas de desenho de moda não seguem as proporções de corpos reais como das aulas de desenho (que não são de moda)?

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Agora, pensa comigo, como vamos ter uma moda mais inclusiva, que atenda a necessidade de todas as mulheres, se estilistas são educados para criar em cima de um único padrão? É um ciclo vicioso, jovens estilistas aprendem a desenvolver sua criatividade em croquis magérrimos e de pernas infinitas e sonham com editoriais e campanhas de moda com os mesmos ideais de beleza irreais (dado que eles precisam de manipulação digital para existir). Por isso tem tanto aluno frustrado com a faculdade. Por isso tem tanta estilista gordinha criando marca que só veste menina magrela. Por isso faltam marcas com tamanhos além do G (que já anda bem escasso por aí).

Sabe, acredito que a “revolução antropológica da moda” que falei meses atrás tem a ver com isso também. A gente pensa muito na comunicação de moda, na mensagem que as marcas (e blogueiras) passam, mas não podemos esquecer da base de tudo isso, a educação. E o jeito que se ensina moda hoje precisa ser revisto e adequado à nova realidade  —  ensinar a fazer roupa pra sonho e pra vida real também (usando os princípios da consultoria de imagem no processo de criação). Incluir na grade mais matérias como antropologia, cultura brasileirabranding, e, por que não, uma dedicada à blogs e redes sociais, que foram os propulsores das transformações dos últimos 10 anos na moda mundial. E a gente só tá començando :)

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// me formei em consultoria de imagem com a Ilana Berenholc, professora incrível e uma das pioneiras na área no Brasil :)

// claro que existem faculdades e professores que tem um discurso mais moderno e alinhado com o meu (e eu adoraria conhecer e trocar ideia com quem pratica uma linha de ensino de moda mais feminista) ;)

||||| 35 amei! |||||

Sobre o autor

blogger in chief

Carla Lemos é a criadora do Modices, um dos mais influentes blogs de moda do Brasil. Carioquíssima, Carla cursou as faculdades de moda e publicidade, foi stylist de globais e há 7 anos criou o Modices para falar de moda de um jeito mais leve e divertido.

  • http://rafaellaribeiro.com/ Rafaella Ribeiro

    Essa discussão é realmente importante! Sempre me indaguei porque os croquis são sempre muito magros e porque as marcas ainda insistem em investir nesse modelo esquálido da passarela. Digo esquálido porque, muitas vezes, não é saudável. Se as roupas vestem pessoas, os desfiles e aulas deveriam ser povoados por pessoas e não corpos; e muito menos um corpo irreal, só digitalmente alcançável. O processo de aprendizagem sedimenta impressões, costumes, vontades de uma sociedade: se ainda não temos uma educação inclusiva (em quaisquer parâmetros), dificilmente teremos uma sociedade inclusiva e, neste caso, desfiles, estilistas e empresas que pensem de maneira a incluir “gente como a gente”.

    É bom saber que isso tem mudado e que com o tempo as coisas estão melhorando. Mas é só abrir uma revista que me decepciono, só entrar num site de beleza famoso pra ver o culto à magreza; por isso debates assim são tão importantes. Tô contigo e não abro, é só através da discussão sadia e da cabeça aberta que o mundo muda :)

    • Walkyria

      Também concordo contigo! Ainda bem que temos excelentes blogueiras pra nos trazer a realidade e comentar sobre o assunto… porque se depender dos sites, das marcas, dos estilistas e de tanto outros… aiaiai…rsrsrs
      e que venham as mudanças! Com corpos e almas reais! :)

      • http://modices.com.br/ Carla Lemos

        amém <3

    • http://modices.com.br/ Carla Lemos

      Palmas, palmas, palmas pra vc, Rafa linda <3

  • Walkyria

    Maaas gentê esses Modices começou 2015 puxando o útero (a orelha é pouco perto do que estão escrevendo :p ) de muita mulher! :)
    Sinceramente, no ano passado minha psicóloga me fez refletir ainda mais sobre esse corpo que a mídia nos traz, porque eu não sou 100% satisfeita com o meu (alguma novidade? hihihi), ela me fez a seguinte pergunta: – Quem te disse que esse é o corpo perfeito?! “Ninguém” sabe ao menos como Eva era… que dirá como o corpo perfeito era… E é isso mesmo, às vezes nos preocupamos mais com o corpo do que com as taxas boas dos nossos exames de sangue! A saúde física está sobressaindo e muito, outras que são de suma importância, e é realmente isso, o padrão pode até ser o magro, e quanto mais as mulheres buscarem esse padrão, ele continuará sendo o padrão… se as mulheres se conformarem com suas coxas grandes… e tornarem esse um padrão, então teremos outra visão… mas é claro que pra isso passar a ser aceito pela sociedade é como achar agulha no palheiro…
    Então quando formos a uma loja e não encontrarmos aquela peça que taaanto queríamos no tamanho G – que é o meu caso… que possamos refletir desde os estudos passados na faculdade, até a benção da dona da loja que não quis comprar a peça! hihihi…
    Adorei o texto Carla.. e deixa parar por aqui porque já falei demais.. e falaria ainda mais! :D
    Ps: detalhe… o meu é G simplesmente porque minha costas é larguérrima… Sim eu sou uma “sem” peito feliz! HAHA!
    *não me preocupo nem tanto com a barriga… considerando o tamanho do busto. :/

    • http://modices.com.br/ Carla Lemos

      Aí que tá, a gente não tem que tentar impor um novo padrão, a gente tem é que aumentar a quantidade de padrões. Tem que ter roupa pra menina alta e magra, mas também tem que ter pra baixinha, gordinha, peituda, de ombro largo, quadril estreito…

      Em vários lugares do mundo você tem calça jeans sendo vendida pelo tamanho não só de cintura, mas de pernas tb (a própria F21 faz isso). Nos Estados Unidos e Europa se tem uma grade maior de tamanhos, não fica limitado a PMG.

      Sei lá, acho que um dos maiores problemas é essa necessidade de padronização. A beleza da vida é a diversidade, não é?

      • Walkyria

        FATO! :}

  • Nati Rios

    Verdade, fiz curso de desenho de moda e personal stylist e no curso de desenho de moda, a professora sempre me corrigia porque falava que meu modelo estava mais cheio e sempre corrigia afinando as pernas, coxas, braços tudo…eu até brincava falando não meu modelo é malhado, mas é verdade eles nos fazem seguir um padrão de beleza magro e sempre igual e isso dificulta muito na hora da criação.
    Beijooos
    @natirios_blogidfashion
    @blog_idfashion
    https://blogidfashion.wordpress.com/

    • http://modices.com.br/ Carla Lemos

      Olha só isso! É, o corpo é cheio de curvas e especificidades que são lindas, pq a galera entrou nessa nóia de fazer roupa pra palito, gente? Quero fazer investigação histórica hahahaha

  • Camila

    Amo quando você fala sobre moda de um jeito mais humano e verdadeiro, sem muito jabá e uma opinião vendida. Não é atoa que é uma das minhas blogueiras favoritas e tenho imenso prazer de entrar e comentar nos seus posts!

    Continue assim, sempre.

  • Cris Morais

    Olá, gostei muito deste seu artigo. Sou professora de moda e trabalho extamente nesta linha que vc falou. Acredito que está na hora, já até passou a hora, da moda ser levada mais a sério, moda é comportamento, moda é sociedade, ela é reflexo de nossos sentimentos, medos e sonhos. A moda precisa ser inclusiva e não o contrário. A moda precisa ajudar a criar consciencia das mudanças no mundo, precisamos rever hábitos de consumo e práticas de produção…ou seja moda é muito, mas muito mais do que gostar de roupas. Se vestir é um ato político, ou pelo menos deveria ser…Podemos marcar um bate papo sobre isso, o que acha? beijos Cris Morais

  • Aldeneide Dos Santos Freitas

    Parabéns pelo texto. É realmente algo que as escolas de moda deveriam parar para refletir … Quem quer trabalhar com moda sabe que a moda é também um negócio , e pra vender é preciso atender de maneira eficiente o seu público, de encantar. E … a maioria das futuras clientes tem um padrão muito diferente do apresentado nos desfiles e representado nos croquis. Na faculdade aprendemos a desenhar dessa forma ” padrão “, mas sinceramente, eu prefiro desenhar modelos com curvas !

    • http://modices.com.br/ Carla Lemos

      É, eu antes de fazer esse post pesquisei a grade curricular de algumas faculdades e deu vontade de chorar de tão desatualizado :( Fiz faculdade de moda há mais de 10 anos e continua tudo igual, é muito absurdo. E cê tá certíssima, curvas são poéticas <3 Beijão

  • Leide

    Q texto ótimo! Conheci o Modices através da Carol Burgo e seu blog, qnd procurei por ler coisas mais condizentes com minha realidade. Confesso: nunca fui “das modas” ou de comprar roupa com base no que está bombando, ou por marca, ou biotipo, apenas gostava da peça e pronto já ia eu levar pro meu guarda roupa. Pois bem, sendo pernambucana e não da cor de caiana(Alceu Salve!) tenho dificuldade com cores e modelagens(taí nunca imaginei escrever sobre isso). Sou magra, se minha amigas lessem isso iam me crucificar pq vivem reclamando que não mostro meu corpo, não sou muito acostumada com isso, foram muitos anos tentando escondê-lo, mas aprendi com vcs, Carol e Carla, a pensar no meu corpo, a tentar esconder o tal do ombro largo q leva as costas largas e que me fizeram por muito tempo usar camisas pra esconder. Hj compreendo mais que apesar da altura e magreza tenho quadril, tenho perna e isso é meu diferencial. Qnd estive no Rio percebi isso mais de perto, as meninas aí são mais conscientes do seu corpo e são menos encanadas. td bem trabalho num meio engessado(Justiça), mas estou começando a adequar minha vibe alterna com isso e ó elogios venham “nimim”. Obrigada Carla, quem sabe qnd voltar ao Rio te conheço e agradeço pessoalmente por mudar minha cabeça e assim mudar minha forma de me ver no espelho, coisa nunca fazia. Vou ler mais sobre isso e quem sabe ter uma segunda profissão kkkk. Livros a indicar, please?!

    • http://modices.com.br/ Carla Lemos

      Ai Leide, tô emocionada <3 Fiquei super feliz com seu comentário, babe! Obrigada de coração. E oh o primeiro livro que cê tem que ler é esse daí de cima mesmo ahhahahah E pesquisa cursos, vale a pena. A minha professora, por exemplo, é especializada em consultoria de imagem corporativa e eu tô doida pra fazer o das oficinas ;) Beijão <3

  • Natalie Rodrigues Alves

    Concordo com vc. Sou docente universitária na área de moda e demonstro preocupação em demonstrar o qto é diferente dos padrões impostos o nosso corpo (o brasileiro e das mulheres reais). Porém enfrento grande resistência. Incluindo nos meus desenhos, q acham minhas mulheres baixinhas e voluptuosas demais. Disseram q o mercado não aceita meus croquis…. enfim. Complicado. Mas fico feliz em tocarem neste assunto!

  • mELINA

    aSSertiva