Como expliquei no post ‘Como funciona a London Fashion Week’, as semanas de moda o redor do mundo tem muito trabalho envolvido – designers, compradores, mídia, jornalistas, todos com seu papel e devida importância. Hoje vou escrever um pouco mais sobre minha semana de desfiles. E vou contar um segredo: foi a primeira vez que cobri uma semana de moda… e deu muito frio na barriga!

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No primeiro dia de desfiles, sexta-feira, acordei por volta das 9:30 para começar  a rotina matinal. Cereal com iogurte e muito café, com leite, sem açúcar. Como estava com tempo de sobra até o primeiro compromisso da manhã  (pela primeira vez na vida já que sofro de uma mal chamado atraso crônico) aproveitei para passar minha nova máscara facial da Aesop, creminho que faz milagres para quem tem problemas com acne. Em seguida, um make super básico para testar o BB Cream da Maybelline.

Acabei optando por um look com carinha anos 70 com quase tudo vintage (a louca do brechó atacando novamente…). Combinei uma saia jeans com botões na frente, camisa vintage da Não Vivo Sem, sapatinhos meeega retrô roubados da minha avó e, para se proteger do frio horroroso aqui de Londres, um casaco em laranja fechado da Beyond Retro. Os acessórios são as únicas peças novas, clutch de pelos da Topshop e óculos que recebi da Chillibeans x Júlia Petit.

Peguei o ônibus no ponto mais próximo de casa em direção a Somerset House, sede oficial do evento. Fashion Week de Mercedes e táxi não é para todo mundo não – quem não quer gastar fortunas se locomovendo por Londres fica com o sistema público mesmo (mas continua fazendo cara de ryca, lógico).

Cheguei uns 20 minutos antes do desfile de Bora Aksu e depois de uma pequena espera fomos admitidos na infraestrutura de desfiles. As luzes se apagam e começa-se o show, as borboletas no meu estômago vão a mil.

Natural da Turquia, formado na Central Saint Martins, Bora Aksu é conhecido por suas habilidades como artesão e seus designs ultra femininos.  Com coleções constantemente inovadoras em termos de produção têxtil, Bora Aksu nunca deixa de surpreender. Com destaque para as peças cortadas a laser e aplicação de bordados orgânico, a coleção-narrativa, com a atmosfera super romântica que também é uma característica tradicional do designer.  O poema “The Nightingale and the Rose” de Oscar Wilde foi a inspiração da coleção – apaixonada e tortuosa, os tons pálidos de rosa, azul, lilás e ocres contam a história de amor não retribuído. O desfile termina com looks pretos, sombrios sem perder a delicadeza insinuante. Meus favoritos.

 

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Sábado foi um dia bem desorganizado para mim… Sabe quando a gente acorda com o pé do lado errado da cama? Tive muitos perrengues para resolver e deixei para escolher o look na última hora. Nada que eu tinha na cabeça dava certo e acabei revertendo para meus básicos: jeans super destroyed da Marques Almeida, um suéter preto de gola alta da Topshop, jaqueta de couro Ellus, botas e bolsa Schutz. Também estreei meus novos brincos da Asos, to curtindo muuuito brincos com correntes, desses que grudam na parte de cima da orelha?

Sai correndo, super atrasada – peguei o busão errado mas consegui, finalmente, chegar ao show do brasileiro Lucas Nascimento. Este é outro designer com incrível poder de manipulação têxtil; sua especialidade: tricot. Desde 2008 ele é um dos beneficiários do NewGen, programa inglês para ajudar novos designers a estabelecer suas marcas de forma lucrativa.

Com uma paleta de cores terrosas (verdes, marrons) acentuada por laranjas, roxos e azuis, o designer reinterpretou estampas florais em casacos, calças e suéteres leves de caimento impecável. Outra textura presente foi o brilho, presente em detalhes diagonais ou peças completas, mesmo em roupas para o dia. As silhuetas alongadas (grande tendência no momento) marcaram presença, vestidos e calças nos calcanhares e além. Os decotes em V ajudam ainda mais a fazer a silhueta parecer mais longa. Uma tomada soturna em elementos e cores tipicamente tropicais.

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Depois do desfile segui em direção a East London para acompanhar uma amiga modelo no seu casting na marca Marques Almeida (outra beneficiária do NewGen), seguida for um jantar e drinks deliciosos no Satan’s Whiskers Cocktail Bar (achado!) na área de Bethnal Green. Fãs de taxidermia vão amar esse lugar: esqueletos, animais empalhados, chifres, tem tudo.

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No domingo passei para um late lunch no restaurante The Diner, no centro de Londres, para depois seguir para a Serpentine Gallery onde ocorreu o desfile da Pringle. Cheguei, tomei meu lugar e esperei. Meu vizinho de assento chegou logo mais, usando nada menos que um suéter de mangas peludas. Ou seja, cada vez que ele levantava os braços para tirar uma foto (a cada 20 segundo, no mínimo) meu campo de visão ficava totalmente bloqueado… Era praticamente como ficar sentada do lado de um urso polar.

Com silhuetas bem setentinhas e muito preto a Pringle comemorou seus 200 anos (!) com esse desfile centenário . O que mais me interessou na coleção foi a variedade de tricôs manipulados em diferentes texturas harmonizados com bordados, rendas brilhantes e detalhes em veludo e pelúcia, tudo junto e misturado em cada look. Plataformas com meias marcaram presença em todas as modelos, típica acessorização do anos 70. Silhuetas alongadas também apareceram – duas tendências fortíssimas para os próximos meses. Uma coleção comerciável, elegante e bem executada.

 

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Segunda-feira houve interrupções na programação do London Fashion Week por motivos de: aulas. Quem trabalha e estuda ao mesmo tempo entende bem esse drama. Consegui tirar uma fotos do meu look para mostrar aqui: combinei uma pantalona da Colcci com tênis e meu casacão de pelôs para criar um look com foco nos tons marrons, tênis Air Force da Nike, bolsa Schutz e óculos Riachuelo.

 

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Terça-feira, cansadíssima, criei coragem para sair da cama e colar na Somerset House para meu último desfile da temporada. A vibe estava bem mais tranquila – sem a multidão concentrada que vi durante o final de semana. Com Susie Bubble sentada bem na minha frente e Scott Schumman (The Sartorialist) do outro lado da passarela, começou-se o desfile de Christopher Raeburn (e ele também faz parte do Newgen!).


Com um plano de fundo de reutilização, design funcional e sustentável, Raeburn faz roupas para o desbravador moderno. Sempre com utilitarismo em mente, ele apresentou uma coleção em tons neutros militares com azuis e laranja. Trazendo referências do universo aquático em forma de uma estampa de bolha e variações de uma estampa de tubarão fofíssima. Também há suas tradicionais referências a uniformes – materiais laranja e apliques  fluorescentes remetem casacos utilitários modernos, tipo aqueles que funcionários de obras, usam? Bem assim, mas na versão fashion. No total, uma coleção com cara fresh, com pegada tomboy, totalmente apaixonante.

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E voilà, chegou-se ao fim a London Fashion Week. Depois de uma semana cansativa porém inspiradora, aprendi muito e espero que vocês tenham curtido saber mais da semana de moda de Londres e acompanhar minha experiência.

||||| 9 amei! |||||

Sobre o autor

Carmen Manzano, 22 anos de confusão e muitas idéias. Natural de uma cidadezinha no interior de São Paulo, mora em Londres onde cursa Fashion Textiles (produção têxtil) no London College of Fashion. Em termos de moda acredita em contrastes, em erros, na diversão com um quê de rebeldia. Também aparece no Obsessiva Compulsiva, seu blog pessoal.