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O que é a tal da Alta Costura?

Rio de Janeiro,

O tempo inteiro o termo “alta costura” é visto em matérias e postagens sobre a moda e suas tendências. Mas a expressão não é um simples jargão da moda que pode ser usado para designar quaisquer vestidos de noiva ou “de festa”. Para começar, o termo “alta-costura” é exclusivo (patenteado e protegido por lei, mesmo em outras línguas) dos membros da ‘Chambre Syndicale de la Haute Couture (Câmara Sindical da Alta Costura), uma organização criada na França no século 19 e que tinha como um dos principais objetivos proteger os criadores e criaturas das cópias. Sim, já naquela época! Começou quando a burguesia queria se vestir como a nobreza, e passou a imitar suas vestes. Os comerciantes dos Estados-Unidos compravam modelos de alta-costura, copiavam e vendiam tudo lá na terra deles.

A câmara possuía, em 1946, mais de 100 grifes associadas, mas hoje são apenas 12 casas oficiais, 4 estrangeiras e 8 convidadas (que ainda não foram completamente incorporadas à Câmara). E para quem acha que o assunto é besteira, é bom dizer que durante a 2ª Guerra Mundial a Chambre Syndicale de la Haute Couture foi alvo de disputas, pois Hitler queria mudar a sede da instituição (na época extremamente rentável) para a Alemanha, mas graças aos esforços do presidente da Câmara à época, a instituição se manteve, firme e forte, na França.

E para fazer parte desse “clubinho” seleto, é necessário preencher alguns requisitos especiais, como:

- Cada maison precisa empregar no mínimo 20 artesãos especializados (e muitas vezes esse ofício é passado dentro da própria família);

- O endereço da marca precisa ser entre as avenidas Champs Elysées, Montaigne e Georges V, as mais importantes de Paris;

- Os modelos têm de ser artesanais, feitos a mão. Ou seja, nada de costura à máquina;

- A sede da maison precisa ter ao menos 5 andares, e dispor de um espaço para desfile;

- A marca deve apresentar duas coleções ao ano, em Paris, e cada uma deve ter no mínimo trinta e cinco modelos originais para o dia e para a noite;

- As clientes podem encomendar peças sob medida (a essência da alta-costura: modelo feito exclusivamente pra você).

Hoje, as únicas marcas no mundo que podem se autodenominar alta-costura são Adeline André, Anne Valérie Hash, Atelier Gustavo Lins (o único brasileiro da lista que criou figurinos para a próxima novela das 9, Fina Estampa), Chanel, Christian Dior, Christophe Josse, Franck Sorbier, Givenchy, Jean Paul Gaultier, Maurizio Galante, Stéphane Rolland – os oficiais; Azzedine Alaïa (de volta na temporada de inverno 2011), Elie Saab, Giorgio Armani, Valentino – os estrangeiros; Alexis Mabille, Alexandre Vauthier, Bouchra Jarrar, Giambattista Valli (fez sua estreia na temporada de inverno 2011), Iris Van Herpen (fez sua estreia na temporada de inverno 2011), Julien Fournié, Maison Rabih Kayrouz e Maxime Simoens – os convidados.

Já fizeram parte dessa lista nomes como Pierre Cardin (que foi “expulso” quando começou a fazer prêt-à-porter), Balenciaga, Yves Saint-Laurent e Lanvin. Christian Lacroix foi um dos casos mais comentados quando, em 2009, deixou de desfilar devido à falência de sua marca. É, não são apenas os vestidos que custam uma fortuna, mas manter uma maison de alta-costura também.

Hoje, no mundo todo, apenas 200 mulheres consomem alta costura, e não são as atrizes de Hollywood, como muitos pensam. Essas, aliás, usam os tais modelos apenas nos tapetes vermelhos, geralmente emprestados das marcas como um meio de fazer propaganda. E pasmem, no livro Deluxe a autora conta que as verdadeiras compradoras têm horror de usar uma roupa que alguma celebridade tenha usado em aparição pública.

Muitas dessas consumidoras são princesas árabes e gente rica até dizer chega da China, mas há nomes importantes nos Estados Unidos, como Betsy Bloomingdale (viúva de Alfred Bloomingdale, aquele da super loja de departamentos), que jamais repete um modelo.

Tá preparada para saber quanto custa um Haute Couture para chamar de seu? De acordo com Bruno Astuto, colunista da Vogue, de 35 mil a 100 mil euros. Muitas dessas consumidoras não usam o modelito mais que uma vez, e por isso costumam doá-los a museus. Fazendo isso, elas ganham descontos nos impostos. A Chanel tem outra tática: quem servir numa peça do desfile ganha 30% de desconto!

Hoje se ouve falar o tempo todo sobre a morte da alta-costura, com o estouro do fast fashion e tudo mais. De fato, é um ofício que não vai muito bem das pernas, já que ele não se sustenta sozinho há bastante tempo. Para se manter, cada maison de alta-costura precisa ter uma linha de maquiagem, perfumes e acessórios – e muitas vezes até produtos licenciados – que venda bastante e pague as contas.

Porque embora 200 mulheres possam pagar o valor de um carro em uma peça de roupa, milhões delas podem ter um pedacinho que for da marca, como um batom, um perfume ou uma bolsa. E é exatamente aí que a pirataria mais prejudica essas marcas, já que ao comprar pirata, deixamos de financiar essa instituição secular, que é uma verdadeira fábrica de sonhos femininos.

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