Reflexões de uma semana de moda
Rio de Janeiro,Começou a SPFW e é engraçado olhar para trás depois de quase 4 anos cobrindo o evento. Quando a gente se descobre querendo trabalhar com moda, as fashion weeks se tornam o grande ideal. Seja para quem quer ser estilista, stylist, jornalista ou blogueiro. Afinal, são durante aqueles longos dias que tudo acontece: tendências são lançadas, pessoas são vistas e o mercado ganha novo fôlego fazendo a economia do país girar.
Só que numa semana de moda parece que você entra num universo paralelo. É muito louco. É tanta informação, para todos os lados, que no início você parece criança que ingeriu um monte de açúcar. Só que posso contar? Essa euforia passa com o tempo. Eu nunca vi uma temporada com tanta gente (o meu círculo é composto das mais variadas pessoas ligadas à internet e algumas do impresso) demonstrando uma falta de vontade de estar ali. Não pelas pessoas, agitação e coisas legais que obviamente acontecem, mas por preguiça da razão de existir do evento. Quase desilusão.
Acho que é a inquietação da geração Y (quem nasceu depois de 1980) começando a se mostrar insatisfeita com o jeito que as coisas estão. Nós vivemos (n)a internet e acredito que por isso a nossa relação com as passarelas mudou. Não precisamos mais esperar os desfiles daqui para saber o que é tendência. A gente já leu em algum blog. Quem está ali vivendo aquele evento já tá cansado de saber que o étnico e o futurismo iam bombar e que verde musgo, mostarda, paprika e vinho seriam as cores da estação.
Logo, começamos a ter necessidade de que tudo isso tenha um novo propósito.
A GENTE TÁ SENTINDO FALTA DE VER COISA NOVA.
De ser surpreendido, poxa!
Sabe que eu acredito que as marcas brasileiras estão precisando se desafiar. Sair da zona de conforto das suas salas de desfile lotadas, das palmas coordenadas no final e do seu sucesso de vendas nas lojas. A grande maioria daquelas marcas que estão no line-up, as que representam a moda brasileira, não entendem o que quer este novo público formador de opinião e consumidor.
No bate-papo deste primeiro dia de SPFW tivemos a Gloria Kalil como convidada aqui do QG F*Hits falando muito sobre a sua trajetória. E contou sobre uma série de seminários que ela promoveu há 5, 6 anos que tinham como objetivo entender a relação do nosso país com a moda. Num deles o debate era o papel do Brasil nisso e chegaram à conclusão de que o nosso diferencial seria a criatividade. E adoraria que fosse mesmo! Mas tenho a forte impressão que as marcas não pensam assim.
Suzy Menkes do International Herald Tribune esteve aqui em terras tropicais, ano passado, para reforçar que o artesanal é o futuro do luxo. Nós temos um trabalho inacreditável de uma cultura muito interessante, mesmo sendo tão jovem. Se os europeus tem séculos de reis e rainhas, nós temos a miscigenação. Vários povos e culturas diferentes (de reis e caciques) que se encontraram nesta terra e criaram diversas novas identidades. Nós temos o novo luxo aqui bem diante do nosso narizmas não sabemos transformar isso numa “marca” desejável.
Eu também acho que nós precisamos trabalhar melhor o branding da moda brasileira. Parar de querer fazer uma moda globalizada e olhar para dentro. Nos cativar e fazer a gente se apaixonar a cada 6 meses. As semanas de moda precisam se mostrar, pra gente que está ali dentro, tão encantadoras quanto para quem tá de fora. Um período onde as criações sejam a notícia mais importante que as celebridades que passaram por lá (ou o fato da Luiza ter voltado do Canadá) .
E que comece mais uma SPFW.

